Quinta-feira, Setembro 01, 2011

Não sejas Maçom


Se queres descanso, não seja maçom, pois o trabalho do maçom deve ser contínuo.
Se queres ser beneficiado, não seja maçom, pois o maçom deve primeiro promover benefícios a e em prol de outros.
Se queres paz, não seja maçom, pois o maçom deve estar em guerra constante contra os vícios.
Se sois egoísta, não seja maçom, pois, para o maçom, compartilhar deve ser um hábito.
Se apenas pensas em ti, não seja maçom, pois pensar apenas em si mesmo é inviável e o maçom deve pensar e agir para todos.
Se desejas enriquecer, não seja maçom, pois o patrimônio de um maçom não é avaliado pelos seus bens, mas sim pelas suas atitudes.
Se sois arrogante, nunca seja um maçom, pois a humildade deve ser uma virtude constante, demonstrada em todos os momentos.
Se sois demasiadamente religioso, não seja maçom, pois o maçom deve ser tolerante em suas diferenças religiosas.
Se não crês em Deus, esqueça, não há como ser maçom, pois os maçons nada fazem sem antes O invocarem.
Se gostas das luxúrias que o mundo proporciona, não seja maçom, pois os maçons devem ignorá-las, vez que são temporárias.
Se simplesmente fazes parte de algo, não seja maçom, pois o maçom não pode só fazer parte, deve trabalhar para fazer a diferença.
Se queres ser maçom, não tente ser o pior nem o melhor, seja apenas você mesmo.
Se és arrogante, não seja maçom, pois o desprezo está em sintoma de maldade e a maldade é a principal inimiga do maçom.
Se és omisso, não seja maçom, pois a iniciativa deve ser notável em um maçom.
Se és preconceituoso, não seja maçom, pois a igualdade deve ser um pilar marcante na vida do maçom
Autoria do Irmão Moacyr D.

Quinta-feira, Setembro 23, 2010

MANIFESTO EM DEFESA DA DEMOCRACIA

"Em uma democracia, nenhum dos Poderes é soberano.

"Soberana é a Constituição, pois é ela quem dá corpo e alma à soberania do povo.

"Acima dos políticos estão as instituições, pilares do regime democrático. Hoje, no Brasil, os inconformados com a democracia representativa se organizam no governo para solapar o regime democrático.

"É intolerável assistir ao uso de órgãos do Estado como extensão de um partido político, máquina de violação de sigilos e de agressão a direitos individuais.

"É inaceitável que a militância partidária tenha convertido os órgãos da administração direta, empresas estatais e fundos de pensão em centros de produção de dossiês contra adversários políticos.

"É lamentável que o Presidente esconda no governo que vemos o governo que não vemos, no qual as relações de compadrio e da fisiologia, quando não escandalosamente familiares, arbitram os altos interesses do país, negando-se a qualquer controle.

"É inconcebível que uma das mais importantes democracias do mundo seja assombrada por uma forma de autoritarismo hipócrita, que, na certeza da impunidade, já não se preocupa mais nem mesmo em fingir honestidade.

"É constrangedor que o Presidente da República não entenda que o seu cargo deve ser exercido em sua plenitude nas vinte e quatro horas do dia. Não há "depois do expediente" para um Chefe de Estado. É constrangedor também que ele não tenha a compostura de separar o homem de Estado do homem de partido, pondo-se a aviltar os seus adversários políticos com linguagem inaceitável, incompatível com o decoro do cargo, numa manifestação escancarada de abuso de poder político e de uso da máquina oficial em favor de uma candidatura. Ele não vê no "outro" um adversário que deve ser vencido segundo regras da Democracia , mas um inimigo que tem de ser eliminado.

"É aviltante que o governo estimule e financie a ação de grupos que pedem abertamente restrições à liberdade de imprensa, propondo mecanismos autoritários de submissão de jornalistas e empresas de comunicação às determinações de um partido político e de seus interesses.

"É repugnante que essa mesma máquina oficial de publicidade tenha sido mobilizada para reescrever a História, procurando desmerecer o trabalho de brasileiros e brasileiras que construíram as bases da estabilidade econômica e política, com o fim da inflação, a democratização do crédito, a expansão da telefonia e outras transformações que tantos benefícios trouxeram ao nosso povo.

"É um insulto à República que o Poder Legislativo seja tratado como mera extensão do Executivo, explicitando o intento de encabrestar o Senado. É um escárnio que o mesmo Presidente lamente publicamente o fato de ter de se submeter às decisões do Poder Judiciário.

"Cumpre-nos, pois, combater essa visão regressiva do processo político, que supõe que o poder conquistado nas urnas ou a popularidade de um líder lhe conferem licença para rasgar a Constituição e as leis. Propomos uma firme mobilização em favor de sua preservação, repudiando a ação daqueles que hoje usam de subterfúgios para solapá-las. É preciso brecar essa marcha para o autoritarismo.

"Brasileiros erguem sua voz em defesa da Constituição, das instituições e da legalidade.

"Não precisamos de soberanos com pretensões paternas, mas de democratas convictos."

manifestoemdefesadademocracia@gmail.com
Fonte: http://www.estadao.com.br/noticias/nacional,personalidades-lancam-manifesto-em-defesa-da-democracia,613242,0.htm

Segunda-feira, Setembro 20, 2010

Quarta-feira, Setembro 15, 2010

Altos Graus

A formação de um maçom está formalmente concluída logo que concluída a cerimónia pela qual ele é elevado ao 3.º grau e assume a qualidade de Mestre Maçom. Todos os "segredos" lhe estão transmitidos, todas as "lições" lhe estão dadas, o método maçónico de evolução é-lhe conhecido. A partir desse momento, o Mestre Maçom é um Aprendiz que aprende o que tem de aprender, como pretende, segundo as suas prioridades e preferências. Acabou a sua aprendizagem e tem a sua "carta de condução". Mas aprender o quê? Tudo o que lhe foi exposto, apresentado, mostrado. Todos os símbolos, rituais, ornamentos, textos, que lhe foram fornecidos ao longo da sua formação. Não que tenha de saber esses textos de cor. Mas porque todos esses elementos são pistas, sinais, caminhos abertos à sua individual exploração.

Onde conduzem esses caminhos? Ao interior de si próprio! À interiorização das virtudes e normas de comportamento e princípios que devem reger a conduta de um homem bom e justo e que procura aproximar-se o mais possível do conceito de homem perfeito. Porquê? Porque crê que é esse trabalho, esse esforço, esse objetivo, o verdadeiro significado da vida, a razão de ser da nossa existência, porque o nosso caráter, o nosso espírito, a nossa alma (chame-se-lhe o que se quiser) necessita desse esforço, desse reforço, desse aperfeiçoamento, para evoluir e passar adiante (chame-se-lhe Ressurreição, ou Glória, ou Paraíso, ou Nirvana, ou o que se quiser). Complementarmente à sua crença religiosa e em reforço e desenvolvimento desta, o maçom procura assim descortinar o inescrutável, entrever o sentido da vida e o Plano do Criador, cumprir a sua vocação.

Em bom rigor, para o fazer segundo o método maçónico não necessita de mais ferramentas do que as que lhe foram dadas ao longo da sua instrução como Aprendiz e Companheiro e na sua exaltação a Mestre. Elas chegam, está lá tudo o que é necessário para que o homem bom que um dia bateu à porta do Templo se torne um homem melhor, um pouco melhor em cada dia que passa, um tudo nada melhor do que no dia anterior e um não sei quê pior do que no dia seguinte.

Para esse trabalho fazer, basta-lhe atentar e meditar e trabalhar nos conceitos e lições que recebeu, explorar a miríade de símbolos e chamadas de atenção com que se deparou. E tirar de cada meditação, de cada exploração, de cada esclarecimento, a respetiva lição e - mais e sobretudo - aplicá-la na sua conduta de vida. O Mestre Maçom tem tudo o que necessita para o seu trabalho e a obrigação de ensinar os que se lhe seguem - cedo descobrindo que será também ensinando que ele próprio aprende...

Mas alguns Mestres Maçons sentiam-se insatisfeitos, desconfortáveis. Até à sua exaltação, tinham tido um guião, uma cartilha, mentores, que auxiliavam o seu percurso. E, de repente, ainda inseguros, ainda tateando o seu caminho, os seus Irmãos largavam-nos ao caminho e diziam-lhes: "aí tens tudo o que precisas de ter para fazer o teu caminho! Procura, lê , estuda, medita, tenta, acerta, erra, quando errares volta atrás e tenta de novo até acertares." Não haveria maneira de guiar ainda o seu trabalho? Não de os conduzir, mas de fornecer como que um mapa, um guia, que facilitasse a sua tarefa? Tudo bem que tudo o que havia a explorar e aprender já lá estava no que lhe fora ensinado. Mas as alegorias têm de ser decifradas, os significados encontrados... É certo que o trabalho tem de ser individual mas... precisa absolutamente de ser tão solitário? Está certo que cada Mestre Maçom deve procurar a sua Luz e, para o fazer, tem de se abalançar ele próprio a atravessar a escuridão mas... não se pode dar-lhe nem uns fosforozitos, nem uma velinhas, para ajudar a alumiar o caminho?

Cedo se chegou à conclusão que sim, que se podia. Que, embora cada um tivesse os meios de explorar o seu caminho, não havia mal nenhum em proporcionar a quem o quisesse um mapa, um guia, um roteiro, que desenvolvesse, paulatinamente, patamar a patamar, as noções que já estavam disponíveis para serem desenvolvidas, mas que não havia mal nenhum se o fossem através de um roteiro bem organizado.

E assim se desenvolveu aquilo a que hoje se chama Altos Graus. Nas derivas do Romantismo, muitos sistemas de altos Graus foram desenvolvidos. De alguns deles ainda restam resquícios, tentativas de manutenção. Outros entretanto desapareceram. No mundo maçónico, nos dias de hoje, predominam dois sistemas de Altos Graus, do Rito Escocês Antigo e Aceite e do Rito de York. Outros são também praticados: do Rito Escocês Retificado, por exemplo.

Mas não se engane ninguém: ao percorrer qualquer desses sistemas (ou mais do que um), não se sobe, não se fica mais alto, mais poderoso, superior. Ao percorrer cada um dos sistemas de Altos Graus está-se a utilizar um guia de auxílio no nosso caminho individual. Cada grau não é um patamar. É uma viagem de descoberta e estudo. E o grau seguinte não é um patamar superior. É apenas outra viagem de descoberta e estudo. De que se volta para de novo partir, seja para reestudar a mesma lição, para reestudar lição anterior, ou para explorar nova lição. E, a todo o momento, o Mestre Maçom pode decidir fazer nova viagem segundo o seu roteiro (e tomar novo grau) ou explorar por sua conta própria. Ou fazer ambas as coisas...

A Maçonaria é um caminho de conhecimento, iluminação e aperfeiçoamento. Que cada um percorre como quer. Às vezes com roteiro. Às vezes sem guia. Uns de uma maneira. Outros de outra. Nem sequer, bem vistas as coisas, o mais importante é o destino. Importante, importante mesmo, é afinal a viagem e o que se retém dela!

Irmão Rui Bandeira
Blog "A partir pedra"
Fonte: http://networkedblogs.com/7S6Da

Segunda-feira, Setembro 13, 2010

São João e a Maçonaria

História e Ritual das duas figuras bíblicas presentes nos rituais simbólicos da Maçonaria, uma prancha de instrução do M:. M:. Montesquieu.

História e Ritual. É tradicional estarem as lojas simbólicas sob os auspícios das duas figuras bíblicas designadas correntemente como São João (embora também se venere, subsidiariamente, o terceiro João, também evangelista, mais conhecido como Marcos(1)). No item XXII dos Regulamentos Gerais das Constituições de Anderson, de 1723, recordam-se os dias mais festivos dos maçons operativos: o mais sagrado é o de São João Batista, em 24 de Junho, mas logo, em segundo lugar, o de São João Evangelista, em 27 de Dezembro. Aliás, como é bem sabido, a Grande Loja de Londres foi precisamente fundada em 24 de Junho de 1717. Em 1721, o cânone dos dois dias solenes foi confirmado em Inglaterra. Em 1736, Lord Sinclair (ou Guilherme, na verdade Guillaume, ou seria William?, Saint-Clair de Roslin), protector hereditário das oficinas da Escócia, abdicou da prerrogativa que possuía e, concentrando-se numa única loja especulativa maçons antigos e maçons aceitos, formou-se uma Grande Loja que alguns consideram sob protecção de São João de Edimburgo (e outros de Santo André da Escócia) (2).

Em 1771, os Estatutos e regulamentos da Muito Respeitável Grande Loja de França consideram João Baptista Patrono da Ordem, reservando particular solenidade às sessões do dia respectivo (3). Em textos franceses do séc. XVIII, conforme Guillemin de Saint-Victor (1787), havia mesmo um diálogo ritual:

“- A quem era dedicada a loja em que haveis sido recebido?
- A São João Baptista.”

Como sabemos, hoje uma das fórmulas pode ser algo como:
“- Meu Irmão, de onde vindes?
- Da Loja de São João, Venerável Mestre.
- Que se faz na Loja de São João?
- Levantam-se Templos à virtude e (es)cavam-se calabouços para os / aos vícios (ou masmorras aos vícios).”

Mantendo-se assim formalmente a ambiguidade.

Mas há variantes: No rito de Memphis-Misraim se comprova que o simbolismo ultrapassa a verosimilhança histórica, num sincretismo criador. Atente-se no diálogo correspondente:

“- Donde vindes?
-Do velho Egipto, Venerável Mestre, e duma loja de São João” (4).

No Brasil, por exemplo, um ritual do Rito Escocês Antigo e Aceito abre os trabalhos Loja em nome do Grande Arquitecto do Universo e de São João da Escócia (5), aparentemente em alusão à Loja fundada em Marselha em 1751, e loja mater do rito escocês filosófico.

Algum enigma paira ainda sobre o São João invocado na abertura dos trabalhos. Mesmo uma obra exaustiva, como a de Pozarnik, que dedica apenas a essas poucas linhas do ritual quase 400 páginas em bom formato, não parece dizer uma palavra sobre o assunto (6)…

Com a invocação de ambos os São João, a maçonaria retoma assim um processo histórico-espiritual, que lhe não é aliás privativo: o de sacralizar (embora de uma forma própria) o já sacralizado. Do mesmo modo que o cristianismo tinha feito coincidir as suas festas com as datas dos solstícios, sendo no de Inverno a festa em honra do deus Mitra (25 de Dezembro), esse que, segundo Renan, poderia ter sido (e ser ainda) o deus da civilização ocidental acaso o cristianismo tivesse tido algum acidente de percurso (por exemplo: se não tivesse existido o imperador Constantino (7) ). Aliás, as nossas repúblicas usam o mesmo barrete frígio que Mitra usava…

A asserção de Renan talvez possa ser provocatória, mas impele à reflexão. Contudo, estas celebrações são mais antigas que o próprio Mitra, porquanto recuam ao tempo das primeiras iniciações, o Egipto, na Grécia, em Roma (8), e muito plausivelmente noutros lugares…

Simbolismo. Uma das possíveis interpretações para a presença do Baptista e do Evangelista na Maçonaria acaba por reportar-se, ainda que imperfeitamente, aos “dois braços” da mesma. O interessante é que sempre há dois braços (mesmo em cada um deles, numa dialéctica constante, infinita), como as duas serpentes do caduceu, como os mosaicos negro e branco do pavimento do Templo. Mesmo no contexto do esoterismo há o braço “místico”, da devoção e da meditação, caminho do deserto, solitário e menos “racional”, caminho do coração, e o braço “ocultista”, caminho mais racional, da vontade e da disciplina do intelecto.

Não se podendo dizer que um João é uma coisa e o outro é outra, o que à primeira vista ressalta será que o Baptista é o grande iniciado (9), e o Evangelista o grande iniciador. Mas, notemos: nenhum iniciador o é sem ter sido iniciado, e a vocação do iniciado é a de iniciar também. Por outro lado, é possível que o carácter de João Baptista esteja de alguma forma empalidecido pela tradição (e pelo texto) bíblico, no qual faz figura sobretudo de precursor. Para outras tradições, não canónicas, João Baptista é sobretudo Mestre, e Mestre desde logo de Jesus…

Contudo, pelo que nos chegou mais exotericamente, o simbolismo associado ao Baptista é o do aprendiz. E o maçom é eterno aprendiz, por muitos graus que alcance – dizem-no os melhores dos mestres. Nas suas errâncias pelo deserto, o Baptista assume também a sina do companheiro, que é viajante. Já o simbolismo do Evangelista é, segundo alguns, cabalístico, e só isso poderia revelar o mestre.

João Baptista e João Evangelista são mesmo comparados por Pike às duas colunas do Templo, ultrapassando a teoria, vinda do rito de Iorque, para a qual eles se podem associar aos trópicos de Câncer e de Capricórnio, que o sol visita nos solstícios de Verão e Inverno. Com efeito, nesse rito, há um círculo enquadrado por duas linhas que representam o Baptista e o Evangelista, e em cima é colocada a Bíblia. “Indo ao redor deste círculo”, dizem, “necessariamente tocamos estas duas linhas assim como as Sagradas Escrituras, e enquanto um Maçon se mantiver circunscrito dentro dos seus preceitos é materialmente impossível que erre” (10).

A comparação com as duas colunas da entrada do Templo não pode deixar de nos lembrar o simbolismo trans-ritual entre a posição relativa das colunas (ou a perspectiva do olhar para elas) entre o Rito Escocês Antigo e Aceito e o Rito Francês. E isso nos revela o próprio sentido da palavra João, que, numa das etimologias mais correntes, quer dizer porta, início, entrada (11), e que se associa ao deus Janus, deus do mês Janeiro, e das entradas e saídas das cidades, representado com dois rostos.

Parece haver algum dogmatismo nesta afirmação, mas o problema é saber, simbolicamente, o que representa estar entre São João Baptista e São João Evangelista. Se já um é modelo, que fará dois.

João Baptista. João Baptista é anunciador, profeta (e mais que profeta, diz Jesus), endireitador de veredas, e mártir (que dá testemunho).

A literatura profana, porém, em geral pouco ou nada acrescenta ao mito, apesar de sobre a personagem ter sido utilizada por Oscar Wilde, e, no teatro lírico, por Massenet e Richard Strauss.

Importa recordar a atitude intransigente do Baptista face aos poderes, que prefigura o combate à tirania, apanágio da Maçonaria. Como diz o mesmo Albert Pike,

“Quanto mais sábio se torna um homem, menos inclinado está a submeter servilmente a sua consciência ou a sua pessoa às cadeias e ao jugo. Pois ao aumentar da sua sabedoria não apenas conhece melhor os seus direitos, como além disso os tem em maior estima, e é mais consciente do seu valor e dignidade. O seu orgulho impele-o a afirmar a sua independência e esse mesmo orgulho é do mesmo modo mais capaz de a defender. E também mais capaz de ajudar o próximo e ao seu país quando tudo está em jogo (…) na defesa da liberdade” (13).

Mas recuemos, porque tudo é símbolo na vida do Baptista.

João Baptista, filho do sacerdote Zacarias e Isabel (prima de Maria, mãe de Jesus), ao que parece ambos estéreis, é considerado “filho do milagre”. Como o neófito, ele nasce e não seria esperado que nascesse. Depois, tal como na iniciação, Baptista é anunciado por um anjo (um mensageiro) no templo. Ele é também anunciador… é uma ponte entre o velho e novo (também entre o Antigo e o Novo Testamentos Bíblicos), como o neófito.

Toda a pregação do Baptista (que se retira escassamente vestido, para o deserto) vai no sentido do arrependimento, logo, da renovação da vida. O próprio baptismo, que pratica, nas águas do Jordão, é um ritual de renascimento. Mas João considera-se apenas uma voz que clama no deserto, e um anunciador de um maior, em relação ao qual se apagará, dizendo-se mesmo nem sequer digno de lhe desapertar a fivela das sandálias…

O recipiendário vai para as suas provas cego e filho da morte, afinal “improvável”, mas acabará, se as superar com êxito, por renascer, recebendo a luz.

A sua permanência na caverna no seio da terra, que é representada pela câmara das reflexões, devendo ser de profunda meditação, equivale à permanência no deserto. Também durante as provas o recipiendário se encontra despojado de metais e nem nu nem vestido, tal como se pensa que andaria João Baptista, coberto apenas por uma pele de cordeiro.

Do mesmo modo, o silêncio em geral imposto ao aprendiz tem paralelo com o silêncio no deserto. O qual depois se volverá, tanto para o Baptista, como para os maçons em geral, por uma reconhecida eloquência. Aliás, ao sinal gutural, que exotericamente evoca um juramento simbólico, e esotericamente remete para o sigilo como dever de todo o iniciado (13), foi também já dado o significado de uma forma de energização do plexo laríngeo, acabando por se poder sem dificuldade interpretar, quando se está a falar de pé e à ordem, no grau de aprendiz (mas se não é aprendiz), que tal posição significa duas coisas: incomodidade de postura, para obrigar à concisão, e apoio laríngico, para potenciar a eloquência. Verdadeira ou não, esta explicação converge com o efectivo à vontade oral dos maçons, mesmo no mundo profano. Por enquanto, mesmo o aprendiz “sabe apenas soletrar”. Logo, não fala verdadeiramente.

Ainda aqui os paralelos não acabam. A referida ligação de João Baptista ao Touro não pode fazer-nos esquecer que a garganta é precisamente regida por esse signo zodiacal, como relembra Plantagenet (14). Wirth considera que este sinal, como que interrompendo a ascensão de fluxos inferiores à garganta, desde logo paixões, teria uma espécie de função de corte, de isolamento do exterior e uma concentração na cabeça, isolada de toda a excitação febril do peito (15).

Ainda na câmara das reflexões, encontra o recipiendário um conjunto de símbolos bastante em evidência, que se destacam do ambiente sombrio, e que o devem interpelar. Alguns têm muito a ver com João Baptista. O primeiro e mais evidente símbolo, é o galo, que obviamente é promessa de despertar das trevas. Também o mercúrio (que todavia tem inúmeras interpretações, consoante a civilizações e os contextos (16) ) é considerado concorde, numa perspectiva alquímica, com o Baptista (17).

Mesmo depois de deixar a sua veste despida de recipiendário, o aprendiz está decorado com um avental branco, de pelo de cordeiro – fazendo recordar o cordeiro de João Baptista, ainda simbolizado entre nós nas festas de São João, em que é, profana mas de algum modo ainda ritualmente, sacrificado. E João Evangelista também será aqui chamado, porquanto falará de Jesus como Bom Pastor (18), e mesmo como Cordeiro de Deus (19). O simbolismo do cordeiro levar-nos-ia muito longe, desde logo à pintura da Adoração do Cordeiro Místico, de Jan van Heyk.

João Evangelista. Se o Baptista nos remete para o Touro e o Cordeiro, o Evangelista é a ?guia. O Baptista, como veremos, ainda não era a Luz, mas dava testemunho dela. A águia corresponde ao momento da revelação da Luz ao postulante pelo Mestre que dirige os trabalhos da iniciação (20). Então é que a águia surge. Mas a águia vem do Egipto, e tem como antepassado simbólico o falcão, que é Hórus, nas suas três formas: o pássaro primordial, cujo olho tudo vê, o faraó, e o filho de Ísis e Osíris. O mais importante é que não saímos do tema da Luz, porque quando o iniciado do Livro dos Mortos egípcio encontra o falcão, afirma: “eu vivo da verdade, sou aquele que existe por ela. Sou Hórus que habita nos corações, o ser íntimo que habita nos corpos” (21). O falcão é luz dos deuses. Como veremos, também a luz estará presentíssima no Evangelho de João.

A águia é o símbolo do Mestre da obra. Segundo Christian Jacq, João teria dito: “Vê a águia: ela voa mais alto do que todos os pássaros, olha fixamente para o Sol e, no entanto, pela necessidade da sua natureza, desce sobre a terra. Assim, o espírito do homem, que se relaxa um pouco da contemplação, transporta-se com mais ardor para as coisas celestes, renovando muitas vezes as suas tentativas” (22).

De João Evangelista possuímos felizmente escritos. Nem todos, segundo se diz, indiscutivelmente saídos do seu punho (como assinala, por exemplo, um Xavier Léon-Dufour (23) ), mas por si compilados, organizados e aprovados, com o acordo dos seus discípulos, e até a instâncias deles.

Contudo, se temos escritos a ele atribuídos, também temos problemas de autoria. Há quem pense que a lenda de uma enorme longevidade de João Evangelista teria sido um estratagema para que fosse considerada uma mesma pessoa o autor do Evangelho e das Epístolas (que pertenceriam a uma personagem) e do Apocalipse, muito ulterior (que seria obra de um outro autor). Em abono da dissociação de personagens está a análise sintáctica e estilística – que são todavia muito falíveis. Teríamos assim, desde logo para Eusébio, baseado em Dionísio Aeropagita (ou no pseudo-Dionísio?), um Evangelista João e um outro João, presbítero João, com a coincidência de terem vivido ambos na ?sia romana, e de terem sido os dois sepultados em ?feso. Só que em tempos diversos (24).

O mais espantoso que se disse sobre ele é que, na sequência de um concílio maçónico, alegadamente reunido na cidade de Benjamim (onde ficará?), e sendo João bispo de ?feso, teria sido convidado por uma delegação de irmãos a aceitar o grão mestrado da Ordem, então renascida. A mesma fonte (25) faz recuar a Maçonaria a Abraão, e mesmo antes. Não sendo citados nenhuns documentos nem autoridades nesta fonte, permitimo-nos considerar estar perante uma daquelas lendas em que alguns de boa fé acreditam não como tais, mas como realidade histórica, o que só contribui para a confusão. Perante a falta de documentos, não podemos senão suspender o juízo.

Fontes mais esotéricas (ou esotéricas de um certo sentido) apresentam ainda João como Bodhisatva do Mestre Johany, representando a constelação de Touro (embora o signo astrológico seja o de Capricórnio), e tendo o seu nome ligado aos sete mantras sagrados que despertariam nossos sete principais chacras astrais: I E O U A M S. Confessamos que ignoramus. São vias que necessitam de ser ainda muito percorridas, sobretudo por aqueles que tenham mais vocação para elas… ou então precisamente o contrário, como diria Dion Fortune (26). Para que, contrariando a facilidade da vocação, os estudiosos possam dominar de forma mais abrangente, todas as ciências, artes e saberes. Aliás, também do Baptista se diz que foi essénio, ou da ordem gnóstica dos Baptistas, avatar de Peixes e reencarnação do Profeta Elias… Apesar de na Bíblia expressamente ele parecer negá-lo (27)…

De qualquer forma, os escritos nos bastem. E começamos logo pelo Evangelho. As lojas que têm a Bíblia entre as luzes oscilam entre o Salmo 133 (“Oh! quão bom e quão suave é que os irmãos vivam em união.”) e o início do Evangelho de João como página de abertura.

O mais rico espólio esotérico é-nos fornecido pelos escritos de João Evangelista, sobretudo o início ou prólogo do seu Evangelho e o Apocalipse, ou Revelação. A questão é muito complexa e extensa para o tempo e espaço disponíveis.

Sobre o Apocalipse pouco se poderá avançar sem o conhecimento e o estudo aturado prévios da exegese, linha a linha, que dele elaborou ?liphas Levi, em Os Mistérios da Cabala ou A Harmonia Oculta dos Dois Testamentos (28). O mesmo autor considera que o Apocalipse é a chave cabalística dos evangelhos (29).

Nada fácil também se revela o Evangelho, sobretudo no seu Prólogo cifrado.

Seria absoluta temeridade, sequer procurar aqui uma interpretação deste Hino ao Logos, que alguns crêem baseado num hino a Jesus. As relações entre Logos, Jesus e Cristo são complexíssimas e fizeram já correr rios de tinta. Atentemos, sobretudo, que, embora o texto original seja em grego, mesmo assim as próprias traduções divergem, e delas se retiram diferentes interpretações, como entre nós sucede com Joaquim Carreira das Neves, autor de um sólido estudo, na perspectiva católica, sobre os escritos de João (30).

Ainda o lugar-comum de Clemente de Alexandria seria o melhor para, numa introdução superficialíssima, explicar a originalidade deste Evangelho, que não se parece com os sinópticos, e que possui este prólogo complexo e belo. Para o autor de Hypotyposeis, João vem tratar das coisas do espírito numa mensagem espiritual (pneumatikon euangelion), depois de os demais evangelistas terem tratado das coisas materiais ou corporais (ta somatika) (31).

É de coisas espirituais que se trata, tratadas com simbolismo, e não de um relato histórico ou biográfico sobre Jesus – se é que alguma vez os evangelhos foram, quaisquer deles, relato histórico ou biográfico. Outro grande comentador de João, já referido, o jesuíta Xavier Léon Dufour, não os considera de modo nenhum históricos, mas, por assim dizer, edificadores e “performativos”, já que o dizer cria (32): como, desde logo, na sentença “Deus disse faça-se a Luz, e a Luz foi feita” (33). Evangelho espiritual, pois, mas não gnóstico, segundo alguns, como Manuel João Ramos (34) e Annie Jaubert, no seu Lecture de L’Evangile selon Saint Jean (35).

A Luz, aliás, está no Evangelho de João de forma muito marcante, desde o início: e os discípulos serão mesmo chamados “filhos da Luz” (36). Terminemos apenas fechando o círculo, ou fazendo convergir as duas linhas, lembrando que João Baptista é uma das figuras centrais do Hino-Prólogo do Evangelho de João Evangelista. Porque ele está intimamente ligado à Luz. Vejamos:

Nos primeiros nove versículos do seu Evangelho, a palavra Luz aparece seis vezes. Ora, João Baptista não era a Luz, mas veio ao mundo para testificar da Luz. E João Evangelista para recordar esse testemunhador, e (ele ou outro seu homónimo) dar por sua vez testemunho das coisas a vir, ou das coisas escondidas, na Revelação.

Se acreditarmos que houve mesmo três João, o Baptista, na sua preparação, é aprendiz, o Evangelista, dando testemunho, é companheiro, e o Apocalíptico, revelando, mas ocultamente, é Mestre.

Mas, como é óbvio, o mais importante não são os paralelismos, nem as analogias (em que se pode sempre ver algum exagero de generalização), mas a mensagem em si mesma.

Montesquieu M:. M:.
Julho de 2010

(1) Act. 12: 12 e 12: 25.

(2) Dr. A:. de S:. Lavoisier, Guia Macónica, 3.? ed., Lisboa: Grande Oriente Lusitano, 2003, p. 146.

(3) Irène Manguy, La symbolique maçonnique du troisième millénaire, 3.? ed., Paris: Dervy, 2006, p. 513.

(4) Christian Jacq, Le moine et le venerable, 2.? ed., Paris: Laffont, 1998, p. 39. Traduzi todas as citações neste trabalho.

(5) Vade-Mecum do Apr:. Maç:. Do Rito Es:. Ant:. E Ac:., S. Paulo: Museu Maçônico, Gr:. Or:. De S. Paulo, 1959, p. 25.

(6) Alain Pozarnik, Mystères et actions du rituel d’ouverture en loge maçonnique, Paris: Dervy, 1991, máx. p. 331 ss.

(7) Sobre esta questão, aprofundadamente, v. Paul Veyne, Quando Nosso Mundo se Tornou Cristão, Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010. V. Ainda Louis Rougier, O Conflito entre Cristianismo Primitivo e a Civilização Antiga, Lisboa: Vega, 1995.

(8) Joaquim Gervásio de Figueiredo, Festas de São João, Dicionário de Maçonaria, S. Paulo: Pensamento, 1970, p. 434.

(9) Adiante veremos alguns exemplos, alguns dos quais directamente inspirados em Irène Manguy, La symbolique maçonnique du troisième millénaire, op. Cit., p. 312 ss.

(10) Albert Pike, Moral y Dogma del Rito Escocés Antiguo y Aceptado, Benidorm, Alicante, 2008, p. 19.

(11) Por exemplo, Rizzardo Da Camino, Breviário Maçônico, S. Paulo: Madras, 1995, p. 358.

(12) Ibidem, p. 27.

(13) Joaquim Gervásio de Figueiredo, Gutural, in Dicionário de Maçonaria, op. Cit., p. 170.

(14) Plantagenet, Causeris en Loge d’Apprentis, citado por Jules Boucher, La Symbolique maçonnique, 2.? ed., Paris: Dervy, 2002, p. 360.

(15) Wirth, Le Livre de l’Apprenti, p. 148, citado ibidem.

(16) V., por exemplo, Jean Chevalier e Alain Gheerbrandt, Dicionário dos Símbolos, trad. port., Lisboa: Teorema, 1994, p. 449

(17) Irène Manguy, La symbolique maçonnique du troisième millénaire, cit., p. 512.

(18) Jn. 10:11; 10, 14.

(19) Jn. 1: 29: “No dia seguinte João viu a Jesus, que vinha para ele, e disse: Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo.”

(20) Christian Jack, A Viagem Iniciática ou Os Trinta e Três Graus da Sabedoria, Lisboa: Pergaminho, 1999, p. 121.

(21) Ibidem, p. 123.

(22) Ibidem, p. 126.

(23) Xavier Léon-Dufour, Lectura del Evangelio de Juan, Jn 1-4, vol. I, Salamanca: Ediciones Sígueme, 2001, p. 12 ss.

(24) Eusébio, História Eclesiástica, III, 39. No mesmo sentido, entre nós, Manuel João Ramos, Ensaios de Mitologia Cristã. O Preste João e a Reversibilidade Simbólica, Lisboa: Assírio & Alvim, 1997, p. 333.

(25) Raul Silva, Maçonaria Simbólica, S. Paulo: Pensamento, 2007, p. 64-65.

(26) Dion Fortune, The esoteric orders and their work, 1982, trad. Port. De Nair Lacerda, As Ordens esotéricas e o seu trabalho, S. Paulo: Pensamento, 1997.

(27) Jn 1: 21.

(28) Eliphas Levi, Os Mistérios da Cabala ou A Harmonia Oculta dos Dois Testamentos, S. Paulo: Pensamento, 2009, máx. P. 55 ss.

(29) Idem, As Origens da Cabala. O Livro dos Esplendores, S. Paulo: Pensamento, 2006, p. 129.

(30) Joaquim Carreira das Neves, Escritos de João, Lisboa: Universidade Católica, 2004, máx. p. 103 ss.

(31) Apud ibidem, p. 9; apud Eusebio, História Eclesiástica, VI, 14, 7, etc. – um tópico comum.

(32) Xavier Léon-Dufour, Lectura del Evangelio de Juan, Jn 1-4, vol. I, cit., p. 14.

(33) Gén. I, 3.

(34) Op. Cit., p. 339 ss.

(35) Annie Jaubert, Para Ler o Evangelho Segundo S. João, 2.? ed., Lisboa: Difusora Bíblica, 1994, p. 6 ss.

(36) Jn., XII, 36, embora “condicionalmente”: “Enquanto tendes luz, crede na luz, para que sejais filhos da luz. Estas coisas disse Jesus e, retirando-se, escondeu-se deles.”. E a expressão aparece noutros Evangelhos.

Fonte: http://www.gremiolusitano.eu/?page_id=750

7º Encontro do Rito Schröder - GOB-SC




Sexta-feira, Agosto 27, 2010

Sábado, Julho 31, 2010

O Maçom e a Política

O sexto Landmark (princípio fundamental) da Maçonaria Regular prescreve:

A Maçonaria impõe a todos os seus membros o respeito das opiniões e crenças de cada um. Ela proíbe-lhes no seu seio toda a discussão ou controvérsia, política ou religiosa. Ela é ainda um centro permanente de união fraterna, onde reinam a tolerante e frutuosa harmonia entre os homens, que sem ela seriam estranhos uns aos outros.

No texto que, neste blogue, dediquei ao sexto Landmark, escrevi:

Por isso, em Loja não se discute Política nem Religião. Esta, porque sendo do foro íntimo da cada um, não faz sentido discuti-la. Aquela, porque sendo susceptível de grandes paixões poderia cavar insanáveis conflitos entre Irmãos. Ademais, reconhecendo cada maçon no seu Irmão um homem livre e de bons costumes, grave atentado a essa liberdade seria não lhe reconhecer o direito à sua crença religiosa e ao seu entendimento político. Não quer isto dizer que um maçon não possa ou não deva afirmar a sua convicção religiosa ou a sua posição política. Pode este, pode aquele, pode aqueloutro, podem todos. Mas, isto feito, mais além não se vai. Cada um crê no que crê, pensa como pensa, ponto final! Não há lugar para discussões sobre se esta crença é melhor do que aquela ou se aquele entendimento político é mais ou menos adequado do que aqueloutro.

A controvérsia ou discussão política está, assim, completamente banida em Loja, na Maçonaria Regular.

Este princípio implica um corolário, a que se chega por duas vias: a Maçonaria Regular não toma posições políticas.

Não o faz, porque (1), uma vez que não existe discussão política em Loja e, dado que as deliberações dos maçons são tomadas em Loja, não há como tomar posição política que resulte de deliberação validamente tomada; e porque (2), uma vez que a tomada de uma posição política implica escolha - em favor de algo, em detrimento de algo -, a instituição maçónica não toma posição, pois, com toda a probabilidade, iria fazê-lo em concordância com alguns dos seus membros, mas, por outro lado, afirmando discordância em relação a outros. E a Maçonaria Regular não privilegia nenhum dos seus elementos, nenhuma das ideias livres de homens livres. Não se trata sequer de determinar maiorias e de agir segundo as maiorias verificadas. Em matéria de ideias, tão legítimas e respeitáveis são as ideias maioritárias como as minoritárias. Afirmar uma posição institucional em detrimento do livre entendimento de um elemento que seja seria desrespeitar esse entendimento. A instituição é de todos, o espaço onde todos cooperam para que cada um se aperfeiçoe e evolua. Não pode pois privilegiar uns - ainda que porventura a maioria - em detrimento de outros ou de apenas um que seja.

A Maçonaria Regular, enquanto instituição, não toma, pois, posições políticas. A Maçonaria Regular não é monárquica nem republicana. A Maçonaria Regular não é politicamente conservadora, nem liberal, nem social-democrata, nem progressista, não prossegue nem defende nenhum "ismo". A Maçonaria Regular integra homens bons, que procuram ser melhores, sejam monárquicos ou republicanos, conservadores ou progressistas, liberais ou sociais-democratas, seja qual for o "ismo" que prefiram.

Por seu turno, cada maçom tem as convicções políticas que entende ter, toma e divulga (ou não...) as posições políticas que lhe aprouver, declara (ou não...) as escolhas políticas que julga adequado declarar, quando se lhe afigura oportuno, nos locais em que pretenda e possa fazê-lo.

Cada maçom é, em suma, um homem livre, que assume e aceita e com naturalidade pratica que há um espaço - a Loja - em que convive e coopera com outros homens livres, que podem ter ideias diversas das suas, sem que tal cause quaisquer dificuldades de relacionamento. E assim a diversidade é, não causa de conflito, mas catalisador de riqueza e abertura de espírito, de constante e leal interação das ideias de todos com todos, cada um testando e avaliando a validade das suas, a força das suas convicções, cada um evoluindo em função da sadia análise das ideias e convicções dos outros.

Fora do espaço da Loja, cada um é livre de assumir as posições políticas que entenda, como entenda, quando entenda.

Por isso, e em suma, não há posições políticas da Maçonaria Regular, mas cada maçom regular é livre de tomar e assumir e divulgar as posições e convicções e escolhas políticas que muito bem entenda. Que serão sempre suas e só suas e só a ele vinculam.

Irmão Rui Bandeira
Fonte: Blog "A partir pedra"
http://a-partir-pedra.blogspot.com/2010/03/o-macom-e-politica.html

ÉTICA E POLÍTICA SOB A ÓTICA DA MAÇONARIA

Senhor Presidente, autoridades, permita-me saudá-los e a todos nas pessoas dos Sereníssimos Grãos-Mestres das 26 Grandes Lojas Maçônicas dos Estados de nosso País e do Distrito Federal aqui presentes.

Permitam-me, também, Senhores, por primeiro, enumerar, ainda que em apertada síntese, os princípios pelos quais se rege a Maçonaria: A iniciação Maçônica tem por objetivo tornar o homem em um novo ser, apto a integrar-se na filosofia do humanismo capacitando-o à compreensão da universalidade, da cor e da fé religiosa, levando-o ao entendimento de que pertence a uma mesma e única humanidade.

De todos os deveres iniciáticos do maçom avulta aquele de buscar eficiência para espargir os ensinamentos Maçônicos entre os que os desconhecem, visando trabalho objetivo pelo bem estar e o progresso da humanidade, passam a compreender, finalmente, que se não podem obter a resposta sobre sua origem, e o destino de seu porvir, sabem para que e porque vieram.

Sabem os Maçons que vieram e vivem, sem descurar de seu próprio aperfeiçoamento, enfrentando os embates que a luta pela vida apresenta, para propagar pelo exemplo e pela palavra os princípios da Maçonaria, que dentre outros em síntese proclama:

- que um povo só é escravo quando desconhece a própria força e por lhe faltar a coragem de libertar-se;

- que os homens são capazes, por sua vontade, de submeter suas paixões e para alcançarem a vitória haverão antes de saber resistir;

- que Deus não é feito a imagem do homem nem possui suas fraquezas e suas paixões, por isso que a maçonaria não o define como, também, não define os princípios da imortalidade da alma, deixando à cada um a liberdade de o fazer, esclarecendo-se e guiando-se por sua própria consciência;

- que não há limite algum à indagação da verdade e, para garantir a amplitude dessa liberdade, exige de todos a tolerância exortando, àqueles para os quais a religião se constitui consolo, a cultivá-Ia com liberdade;

- que a doutrina maçônica se contém inteira na asseveração do amor ao próximo, sedimentada sua moral na prática da solidariedade e da caridade à todos os seres humanos;

- que o Maçom cultiva a simpatia e a compaixão por todos os homens, mesmo por aqueles ainda escravos de concepções imperfeitas, desenvolvendo esforço para abolir os preconceitos e os erros;

- que o Maçom honra a sua Pátria dispondo-se a entregar sua vida pela preservação de sua integridade e de seu povo, jamais se constrangendo de propagar as verdades maçônicas, sem qualquer temor e aonde quer que sejam úteis.

Explicitados tais princípios, pode-se afirmar, também, sinteticamente, a compreensão sob a ótica Maçônica, do que sejam a Ética e a Política.

Existe hoje no Brasil, em alguns segmentos da sociedade, um perigoso distanciamento entre ética e política. Há uma percepção difusa de que as duas não se complementam, constituindo-se universos distintos. A ética, assim, isoladamente, não teria espaço no mundo político.

Contudo a ética é uma instância que, tática e estrategicamente, deve se subsumir na política.

Se em algum momento, eventualmente um partido político pretendesse ser detentor do monopólio da ética isso seria impossível. A circunstancia de politização da ética teria vida fugas e em curto período, porem os fatos provariam ser impossível existir grupos que pudessem titular-se como detentores absolutos dos valores éticos.

A ética está alicerçada em princípios. A assertiva que, os fins justificam os meios jamais poderia ser invocada na política. Se abandonasse os princípios básicos, a política perderia a sustentação dos seus atos. Nesse sentido, a ética deve embasar toda e qualquer ação política. Trata-se, enfim, de uma questão de princípios.

Quando, eventualmente, os fins pudessem ser alcançados por meios espúrios, a sociedade passaria a correr perigo.

Consoante a doutrina da Maçonaria o pensamento ético deve forjar o sistema de valores que fundamenta uma sociedade justa.

A política assim deverá ser aplicada eticamente à sociedade e, por isso que nem a ética nem a política podem ser monopólio de grupos ou instituições.

Sabe-se que o planeta esta ameaçado pelo desequilíbrio das ações humanas sobre o meio ambiente. Durante séculos, essas ações se desenvolveram como se todos os recursos fossem inesgotáveis e, neste decisivo século XXI, a sociedade esta diante de desafios que em nenhuma época anterior enfrentou: a degradação acelerada do planeta, a ameaça crescente ao processo civilizatório e o fim da humanidade como a conhecemos.

Exige-se, hoje, de cada nação e de cada ser humano, uma mudança de paradigma. Ou se muda de rumo agora ou se legará às gerações futuras um mundo à beira do abismo.

Para reverter esse quadro, precisa-se de uma nova política ambiental e, acima de tudo, de uma bioética, uma ética da vida. Só a atividade ético-política pode lutar, mundialmente, pela sobrevivência do planeta.

No campo político, todos sabem que a democracia renova-se juntamente com a renovação da sociedade. Um rápido olhar sobre a história do país revela que a democracia pode ser suprimida pelas circunstâncias do momento, utilizada por grupos de poder que confundem o público e o privado, manipulada por interesses que atropelam a ética por objetivos subalternos.

De acordo com eminentes teóricos, a democracia é antes de tudo o regime político que permite aos atores sociais formarem-se agindo livremente.

São os seus princípios constitutivos que comandam a existência dos próprios atores sociais.

Por isso que três princípios básicos devem reger o projeto democrático: o reconhecimento dos direitos fundamentais, que o poder deve respeitar; a representatividade social dos dirigentes e da sua política; e a consciência de cidadania, extraída do fato de pertencer a uma coletividade fundada sobre o direito.

Quanto aos direitos fundamentais, quando não são vividos como direitos nem como fundamentais, instaura-se a corrosão das Instituições que alicerçam o Estado Democrático de Direito, pondo em risco a própria governabilidade.

Registre-se que, por conta desse estado de coisas, podem faltar recursos para a educação, saúde e segurança pública, recuperação e construção de estradas, proteção do meio ambiente e dos recursos naturais, e tantos outros bens que a Nação reclama e almeja.

Portanto a eventual falta de ética e moralidade no trato da coisa pública propiciaria clima de desesperança e descrédito que anunciaria desastres iminentes. As duas últimas tragédias aéreas afiguram-se bastantes representativas do estado de espírito que tomaria conta da nação se não se retomasse, de imediato, como feito, o eixo de equilíbrio entre as Estruturas da República, para restabelecer o bem-estar do povo. Essa retomada se da por uma representatividade real, necessariamente fundada na Ética.

Hoje, neste exato momento, milhões de pessoas não saberiam dizer o nome do vereador ou o número do deputado federal em que votaram nas últimas eleições. E, caso dissessem o nome ou o número, dificilmente poderiam explicitar de forma clara a plataforma do candidato. Caso fosse lembrado o nome e explicitada a plataforma, não saberiam dizer o que o eleito teria feito ou faria com o mandato que lhe fosse democraticamente outorgado nas urnas. Existiria assim, por parte dos eleitores, uma falta de comprometimento com o seu próprio gesto, um gesto ao mesmo tempo individual e coletivo, fundamental e democrático, no exercício da cidadania participativa.

Por outro lado, os eleitos, quando exercitassem, livremente, o mandato, sem cobranças e sem acompanhamento, poderiam, eventualmente, se entregar a uma representação teatral, que transformaria instituições veneráveis em palco, para os holofotes da mídia, verberando palavras vazias à ouvidos desatentos.

Assim quando a representação não cumprisse seus objetivos básicos, o teatro e a política nada teriam a ganhar e os representados teriam tudo a perder.

Dessa forma, a representação social se tornaria uma farsa e o ato democrático cairia no vazio. Como em tal situação raramente existiria motivos para aplausos, as vaias que ressoariam no teatro, nos aeroportos ou nos estádios repercutiriam, uniformemente, sobre os próprios atores sociais; os eleitos e os eleitores. Tudo ficaria em suspenso até a próxima convocação das urnas, o que, por argumento poderia resultar em mais do mesmo, fato que reiteraria o círculo vicioso de esperanças que se perderiam e das promessas que jamais se cumpririam.

Para escapar desse circulo vicioso, seria urgente que as eleições se constituíssem no momento propício para que se realizasse expressiva modificação no quadro político, quando necessário, com o respeito à coisa pública, através do voto que se depositaria em nomes capazes de ouvir e atender o clamor público, tudo sem exclusão das medidas administrativas e judiciais que visassem exemplar punição, daqueles que, eventualmente, corrompessem sua representatividade quando eleitos.

Respeitados e cultivados os direitos fundamentais, valorizada a representatividade, há de cuidar-se da cidadania. Sob a ótica Maçônica nesse sentido pode-se afirmar que canta-se o Hino Nacional com orgulho, e patriotismo e, induvidosamente, ama-se o país.

Porém, sabe-se que milhões jamais leram a Constituição Federal, milhões desconhecem a Lei e só entram em contato com ela através do policial da esquina, momento em que têm a oportunidade de clamar que a lei é injusta, brutal ou corrupta. Milhões são inocentes antes de ultrapassar o sinal fechado, e, por desatenção ou simples desconhecimento da Lei, ninguém é culpado, todos se pressupõem inocentes até prova em contrário, diante dos seus próprios atos.

Todavia, para a Maçonaria, há de educar-se a população insistindo para que compreendam a responsabilidade de cada um diante de si mesmo e dos outros, diante da Lei, da justiça, do direito de ir e vir, da busca da felicidade, conscientizando-a de que o paternalismo e o clientelismo se constitui ameaça à cidadania. É preciso esclarecer, pela educação, ao povo que fugir ao compromisso com a própria cidadania é mais que uma fuga: é ajudar a alimentar a corrupção dos valores necessários para a construção de uma sociedade mais justa, mais equilibrada e mais harmoniosa.

\Os Maçons pregam que se há de colher no plano coletivo o que se planta no plano individual. Que para se denunciar o ?sistema? há de se ter consciência de que como seu integrante deve-se proporcionar os meios para sua melhoria. É preciso, como eleitores saber cobrar dos políticos o cumprimento do programa com o qual foram eleitos pelo voto do povo. Ao se delegar poderes, há de se manter o vínculo com esse poder, porque todos são atores principais do espetáculo, por isso que para se aplaudir ou vaiar não se o pode fazer como simples espectador, mas como co-participe das ações, impondo-se encontrar meios para que não existam as vaias, às quais haverá de se sobrepor os aplausos.

É preciso que no mundo os fins sejam alcançados em estrita obediência aos princípios, sem os quais não haverá espaço para o processo construtor. Por isso, mais do que nunca, é preciso vincular política e ética, ação social e participação. Só assim será possível escapar do círculo vicioso dos eventuais atos inconseqüentes e descompromissados para o círculo virtuoso dos atos comprometidos e conscientes. Só assim será possível o saneamento da vida pública, quando necessário, com a retomada do verdadeiro sentido de cidadania, com absoluto respeito à coisa pública, às leis, e aos mais altos interesses do Brasil, como determina a Constituição Federal.

Os atos livres e soberanos dos homens e mulheres é que são a fonte dos valores, e o maior de todos os valores é o ser humano integralmente realizado. Essa é, acima de tudo, uma questão ética. E a ética deve ser um imperativo da política e da própria vida em sociedade.

E para chegar a essa conclusão não é necessário buscar inspiração nas altas e rarefeitas esferas do pensamento humano. Basta caminhar entre o povo para colher idêntica lição de sabedoria. Essa reflexão encontra uma perfeita tradução na experiência dos simple mortais a dizer: a voz do povo é a voz de Deus. Por isso é preciso ouvi-la como a mesma atenção dedicada aos grandes pensadores.

Ministro Waldemar Zveiter
Sereníssimo Grão-Mestre
Grande Loja Maçônica do Estado do Rio de Janeiro
Fonte: http://www.cmsb.org.br/trabalho01.php

Maçonaria & Política


A política continua sendo um assunto mal compreendido e até certo ponto controverso na maçonaria. Ao se falar ‘em ou de política’, muitos Ir\ interpretam, automaticamente, como política-partidária (?!).

Ao analisarmos essa questão com mais profundidade e rigor, à luz da evolução e desdobramentos do conceito de política na maçonaria universal, através da história, descobrimos que há duas correntes claramente estabelecidas: a anglo-saxônica e a latina.

A anglo-saxônica a proíbe terminantemente desde a Constituição de Anderson (1.723): “... e sobretudo deve-se evitar discussões sobre religião, política e nacionalidade”, “... nenhuma discórdia ou querela privada deverá transpor a porta da loja, menos ainda querelas a respeito de religião ou nações, ou política do Estado...”

E o Ir\ Anderson tinha motivos de sobra para assim pensar e assim agir. Na época proliferavam pela Europa violências políticas (guerra dos 30 anos...), religiosas (dogmatismo e sectarismo extremo entre anglicanos, católicos e protestantes) e reascendia um bárbaro anti-semitismo...

Não obstante a firma convicção do Ir\ Anderson, que afirmava e praticava o neutralismo absoluto nesses assuntos (religião, política e nacionalidade), vários IIr\, inclusive diversos contemporâneos seus, não concordavam e não concordam com ele. Só para lembrar: essas proibições não constam das Landmarks do Ir\ Alberto G. Makey.

Já a maçonaria latina - regiões normalmente palcos de regimes coloniais, ditatoriais e autoritários desde a época das primeiras colonizações na América do Sul -, só proíbe a política partidária ou de facção. O Ir\ Álvaro Palmeira (Grão-Mestre geral honorário e grande instrutor do Rito Brasileiro), ao examinar esta questão do ponto de vista histórico, ético e moral, chegou à conclusão que “há de se distinguir três faixas de ação política na maçonaria”:

A primeira, de sustentação obrigatória para qualquer maçom: luta e trabalho contra o “extremismo político e o absolutismo religioso; pela liberdade e igualdade dos cidadões perante a lei; pela autodeterminação dos povos; pelo governo representativo, através de eleições periódicas e justas; pelo império da lei que venha de encontro aos anseios do povo que a ele se destina; pela justiça social, diminuindo as distâncias no convívio humano; pelo ensino oficial leigo; pela igualdade jurídica do homem e da mulher; pela igualdade de oportunidades para todos cidadões; pela separação entre igreja e Estado; pelo livre exercício do culto religioso; pela supremacia do casamento civil; pelos direitos de petição, reunião e associação; pela inviolabilidade do domicílio; pela defesa dos acusados; pela democratização do capital; pela obrigatoriedade do trabalho, considerando-o um dever social; pela supressão da miséria, da fome e das guerras, pelo direito a prosperidade...”.

A segunda, permissiva a qualquer maçom: política em defesa dos interesses da comunidade, tendo por base e parâmetro a primeira. Nesta faixa de ação, “para não violarmos a consciência de nenhum Ir\, devemos seguir a normas sugeridas pelo Ir\ Tempsis: a) Toda doutrina deve ser exposta em sua loja, e, b) nenhuma doutrina pode ser objeto de um voto ou qualquer medida que implique em uma adesão”.

A terceira, terminantemente proibida de exposição e debate em loja: política-partidária ou facciosa. “O nome e a bandeira da instituição não pode ser conduzida à luta eleitoral e à competição rasteira das urnas. Toda reunião maçônica, tendo por objetivo discussão política-partidária ou de facção de qualquer espécie ou a luta de partidos políticos entre si, deve ser sumariamente interditada”.

Normalmente os Grãos-Mestres Grandes Lojas, GOB e Orientes Independentes, em separado (infelizmente), reunem-se para debaterem assuntos maiores da Ordem. Em julho de 1.997 os Grãos-Mestres das 27 Grandes Lojas Maçônicas do Brasil, reunidos na XXVI Assembléia Geral Ordinária da CMSB, em Belo Horizonte-MG, aprovaram e subscreveram ‘Proclamação do Povo Brasileiro’ reafirmando a intenção “de não se vincular, de forma alguma, a correntes político-partidárias”. Mas, indaga às autoridades constituídas “até que ponto o povo brasileiro suportará e resistirá diante do desemprego, da miséria, da corrupção, da impunidade, da malversação do dinheiro público e da desordem que geram a insegurança e a desestabilização das instituições democráticas ?”. Alerta-nos para o perigo da quebra da legalidade se persistir os escândalos nos poderes constituídos, afirma que “não há poder político que se mantenha quando a maioria do povo é infeliz”, e conclama do povo brasileiro a votar com consciência e sabedoria...

Dizem que a maçonaria de hoje vive de glórias do passado, e até certo ponto esta afirmação é correta. Durante várias décadas a maçonaria brasileira se preocupou mais com cisões internas, omitindo-se das grandes questões que afligiram (em) nossa pátria, nosso povo.

Não obstante os altos corpos maçônicos já estarem se movimentando, trabalhando até, pela defesa e aplicação dos nossos princípios de liberdade, igualdade, prosperidade e outros, a grande maioria das lojas ainda permanece omissa nas questões político-comunitária.

Nós, maçons, apóstolos do G\A\D\U\, soldados da “liberdade, igualdade e fraternidade”, e obreiros de elevados princípios de ética, moral e razão, não podemos nos acomodar ou nos acovardar e assistirmos na passividade a continuidade de escândalos envolvendo altos membros dos poderes constituídos (?!), de desmandos de políticos corruptos, ladrões e irresponsáveis. Desses descalabros oficiais - que engendram benefícios para interesses de minorias - é que nascem às “desconfianças nos homens públicos, na classe política e a descrença nas instituições , tornando-se perigoso indicador da formação de uma opinião pública em favor da quebra da legalidade”.

Como disse Bertold Brecht (1.898-1.956), “o pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, não participa dos acontecimentos políticos; não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependa das decisões políticas. O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política; ele não sabe que de sua ignorância nasce à prostituta, o menor abandonado, o assaltante e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, o corrupto e o explorador das empresas nacionais e multinacionais”.

Respeitando-se integralmente as Landmarks e os 33 mandamentos da maçonaria e, considerando as faixas de ação da política maçônica, concluímos que devemos nos empenhar, como irmãos e instituição (lojas), em defesa dos interesses maiores da comunidade. Isto significa fazermos política-comunitária: discutir e avaliar internamente os problemas estruturais da sociedade em que vivemos, ajudar a encontrar soluções e colaborar em suas implantações. E olha que neste Brasil afora muitas lojas vêm fazendo exatamente isto, seja nas áreas educacional, de assistência social, de saúde pública, de ecologia e tantas outras. E nestas ações sociais, nunca devemos esquecer de aplicar duas importantes regras: 1ª - Jamais divulgar essas ações ao mundo profano, pois “o que a mão direita der a esquerda não deve saber”; e, 2ª - sempre que possível, realizar ações sanadoras e não paliativas, pois “o ensinar a pescar é muito mais duradouro do que simplesmente dar o peixe”.

Não importa o tamanho do seu Município em que viva, ele é importante para você e, tenha certeza, importante para o Brasil. Se cada Município encontrar soluções para parte de seus próprios problemas de forma criativa e participativa, certamente os habitantes deste Município, o Estado e o Brasil ganharão com isto. Reflita sobre esta questão.

A moderna sociologia nos diz que num futuro próximo - e eu acredito que este futuro já iniciou - as grandes decisões sobre nosso próprio destino (material) passarão, necessariamente, pela 3ª via: as Ong’s. E gostem ou não nossos queridos IIr\ mais ortodoxos, a maçonaria é uma das maiores Ong’s do planeta. Portanto meus irmãos, mãos a obra.

Ir\ Francisco H. de S. Matos
Obr\ da ARLS Darcy de Moraes nº 28

Bibliografia:

- Manual do Seminário de Mestres Maçons - 1.980/ARLS Amor e Caridade II - Ponta Grosso/PR

- O Companheiro - Edições nº 8, 10 e 23 - ARLS Caridade Universal III - Araraquara/SP

- Proclamação ao Povo Brasileiro - CMSB - Boletim da GLMEMT, edição 09/97.

- A Constituição dos Franco-Maçons de 1.723 - Edição de 1.982.

Fonte:http://www.lojasmaconicas.com.br/artigo2/mac_politic2.htm

GOB-SC : Voto e Consciência


Fonte:http://www.gob-sc.org.br/modules/news/

Quarta-feira, Julho 07, 2010

Instalação


Fonte:http://www.gob-sc.org.br/modules/news/

Segunda-feira, Junho 21, 2010

GOB: há 188 anos presente na História do Brasil!



Fonte: http://www.gob-sc.org.br/modules/news/

Domingo, Maio 30, 2010

Uma Defesa (Intransigente) do Processo Iniciático na Maçonaria

Nada melhor do que a célebre interrogação de Joseph de Maistre, na sua Memória ao Duque de Birunswick (1728) para nos inundar no paradoxo da negação da via iniciática e nos facilitar uma demonstração pelo absurdo: "Qual a origem de estes mistérios que não ocultam nada, destas figuras simbólicas que não representam nada? o quê! homens de todos os países reúnem-se, talvez desde há vários séculos, para se co1ocarem ordenadamente sobre duas filas, jurar nunca revelar um segredo que não existe, levar a mão direita ao ombro esquerdo tornar a trazê-lo para a direita e depois sentarem se à mesa para comer? Não podemos distrair-nos, comer e beber desmedidamente sem falar de Hiram, do templo de Salomão e da estrela flamejante?"

Permitam-me, meus queridos Irmãos, que leve ao cume do absurdo o que sugere Joseph de Maistre.

Sim, para se comer e beber bem haverá círculos gastronómicos melhores, onde naturalmente não se levantarão problemas com alguns Irmãos nossos de carteiras menos recheadas, porque a esses restaurantes eles não irão... e nesses banquetes são conversas moles, profanas, as que menos dificultam a digestão... Ora isto é completamente diferente do verdadeiro Ágape maçónico.

Etimologicamente, Ágape significa o amor altruísta ou como foi utilizado pelos primitivos cristãos, o amor sobrenatural entre Deus e os Homens ou dos Homens entre si como filhos de Deus - é o amor espiritual da caridade, no seu sentido pleno, amor da família divina, dos homens como filhos de Deus, e extensivo à refeição onde reine esse amor. Em termos maçónicos, designa a refeição ritual após uma celebração, em princípio obrigatória, simbolizando uma recreação em comum, merecida após o trabalho e presidida pelo Venerável Mestre. Ora se for isso que fizermos, o sabor da refeição é excelente, mas é outro...

Mas há também quem diga que a Maçonaria é uma Fraternidade, e é uma forma excelente de arranjar amigos... subir na vida... negócios... e atingir uma hierarquia...

Vejamos por partes:

Amigos
Muito mal vai o homem que, chegando os 21 anos, não tenha arranjado por si mesmo amigos suficientes, ao ponto de, para os ter, necessitar de entrar numa Fraternidade. De facto há entre nós uma extensa, uma profunda, uma peculiar amizade, por uma razão não profana, mas sagrada: sermos todos irmãos porque filhos do mesmo Princípio Criador praticando o mesmo ritual e à sua glória. Fraternidade sim como filhos do mesmo Deus. A Fraternidade é assim a consequência dum princípio, e por natureza do próprio princípio, extensiva a toda a Humanidade e ao Cosmos.

Arranjar negócios, influências, e coisas que tais
Não sou por ineficácia total nesta área um perito ideal para me debruçar sobre este assunto, mas, com ou sem modéstia, sou suficiente perspicaz para me dar conta que como "lobbies" de influência nesta área, a Maçonaria portuguesa felizmente - e sublinho felizmente - ainda será pobre. E Deus queira que por desígnios do Supremo Arquitecto do Universo ela continue pobre mas de camisa lavada.

Subir na hierarquia? Dois aspectos se levantam, o primeiro no mundo profano e esse tem que ver com o ponto anterior. O segundo, diz respeito ao orgulho da "cordonite" e é uma pueril, quando não néscia confusão entre a ambição da elevação hierárquica profana com a elevação hierárquica maçónica, que é, antes do mais, uma maior responsabilidade para si e um maior serviço aos outros.

Quando entenderemos nós todos, no íntimo do nosso ser, que a única hierarquia maçónica é a iniciática, os três graus do processo iniciático? Ao desempenho de funções simbólicas ritualistas, o "officium", foi no séc. XVIII e por via francesa, erradamente transposto para termos da época, devido à grande influência do mundo profano e militar, por "oficial", quando o seu verdadoiro sentido é o de "oficiante". Os nossos irmãos que desempenham funções no espaço sagrado da loja são oficiantes de desempenhos simbólicos. O respeito que após abertura dos trabalhos lhe devemos é pelo papel de que estão investidos, pois o desempenho dessas funções, qualquer que seja o seu nível, não lhes confere um novo grau e não modifica em nada o que eles possuem; a função tem em si, em termos sagrados, "um carácter acidental".

Outros afirmam que a Maçonaria é eminentemente uma Associação Filantrópica e de Beneficência ou como hoje sói dizer se una Instituição de Solidariedade Social.

Aí, perdoem-me, mas existem sem dúvida outras Instituições onde as razões custos / benefícios são seguramente mais eficazes...

O que nos resta como núcleo primordial organizador da instituição maçónica?

Ser uma instituição moralizadora do Homem?

Se atribuirmos à palavra moral o seu valor semântico e histórico, a Maçonaria forçosamente se confundiria com uma Religião, A não percepção duma diferença essencial de natureza e de processos espirituais tem sido a causa de controvérsias e dificuldades e muito sofrimento com algumas Religiões.

Quando o Duque de Sussex, Grão Mestre da Grande Loja Unida de Inglaterra em 1843, declara que a Maçonaria não é pertença de nenhuma religião, 30 anos depois da unidade entre os Ancients e os Moderns terem chegado ao Acto de União em 1813 permitiu pela primeira vez que e iniciassem homens de religiões não ocidentais, ou seja, para além de católicos, anglicanos, protestantes e judeus, não deixou nenhuma porta aberta a um eventual sentido integrador, ou seja, como se a Maçonaria pudesse ser a futura "Cidadela das religiões", a defensora da unidade religiosa, ou melhor, trans-religiosa, o que nos permitiria falar numa espécie de síntese universal das religiões, e na sua consequente acção ecuménica.

É um equívoco ainda hoje perigosamente frequente pois que confunde as duas vias e os dois métodos tradicionais de abordagem ao sagrado à espiritualidade, ao aperfeiçoamento moral e a Deus - a via e o método religioso, a via e o método iniciático. Por serem dois domínios e vias distintas, por natureza, como diz Guenon, não podem, não tem, não devem entrar nem em oposição, nem em concorrência.

Assim se compreende porque toda a moral, é de essência religiosa, pois não implica nenhuma identificação e deixa sempre subsistir a dualidade entre o sujeito e o objecto, a bem dizer, aliás, é de algum modo necessário que assim seja, pois esta dualidade faz parte do ponto de vista religioso. Pressupõe uma atitude passiva de aceitação dualista, enquanto o aperfeiçoamento Maçónico é o da interioridade do ser, é a busca do divino em si e da sua unidade com o Cosmos e com o Grande Arquitecto do Universo.

Entramos no âmago da essência maçónica. Ao contrário da religião, por natureza exotérica, o que quer dizer aberta a todos sem excepção, a via iniciática é exotérica, ou seja, branco no preto, o interior, o fazer entra no interior, por natureza reservada a eleitos, escolhidos pelas suas qualificações com um carácter elevado de critérios que disciplinam a exclusão e a inclusão neste método espiritual.

A via iniciática, ou gnose, é um saber sagrado que pertence ao Ser, e é secreta pois está escondida ou oculta na natureza íntima de cada homem ignorante ou sábio orgulhoso ou humilde. Ninguém, senão o próprio, possui a chave que a fecha e guarda, ou seja que pode abrir a faculdade espiritual que conhece melhor de si dentro de si, o divino no homem. É uma via activa que, sem esforço individual nunca se inicia nem pode decorrer o processo iniciático. É uma via não mística, pois que esta é por natureza passiva tal como a religiosa.

Ajudado pelos iniciados que o procederam, captará, adivinhará ou sentirá intuitivamente o sentido dos símbolos e a impulsão dos ritos, iniciando se progressivamente, interminavelmente, regressando sempre como bom mestre a aprendiz, e como bom aprendiz desejando ser mestre de si mesmo. É uma linguagem do coração, símbolo da verdade e do amor que se manifesta na intimidade do ser.

Sim, a Maçonaria é efectivamente uma Sociedade Tradicional Iniciática. Recordo vos que, na Declaração Solene que efectuámos antes da nossa iniciação, nos obrigámos a respeitar e a cumprir fielmente a Regra dos doze pontos, resumo dos Landmarks efectuado pela Grande Loja Nacional Francesa. Logo no 1.º ponto nos diz que "A Maçonaria é uma fraternidade iniciática que tem por fundamento tradicional a fé em Deus, Grande Arquitecto do Universo; no 2.º, que nos pede "o absoluto respeito das tradições específicas da Ordem", no 4.º que explicita que a Maçonaria visa "pelo aperfeiçoamento moral dos seus membros o da humanidade inteira", e, sobretudo no 5.º quando declara que "A Maçonaria impõe a todos os seus membros a prática exacta e escrupulosa dos ritos e do simbolismo, meios de acesso ao conhecimento pelas vias espirituais e iniciáticas que lhe são próprias" e isto tudo para como se expõe no ponto 9.º cada irmão esteja "apto a reconhecer os limites do domínio do homem e o infinito poder do Eterno".

Sim, efectivamente, a Maçonaria é uma Sociedade Tradicional Iniciática, e é o processo iniciático individual e comum que nos permite a todos jantar em conjunto após os trabalhos, que entre nós reine um profundo amor fraterno que nos une numa amizade ímpar e especial que, para além do respeito pela hierarquia funcional sagrada no Templo, somos irmãos em profunda igualdade e sem nenhuma diferenciação porque, na enorme diversidade de cada um de nós, somos obreiros no plano do Grande Arquitecto do Universo, no desejo de "reconstruir o Templo do Espírito, sob a sublime lei do amor e do serviço, sem esperanças calculistas de recompensa, mas pura e simplesmente à Glória do Grande Arquitecto do Universo, tal como vem no Salmo 115, 1 - "Não a nós, Iahweh, não a nós, mas ao teu nome dá Glória, por teu amor e tua verdade".

Se de facto nos iniciarmos, não cairemos nem na bebedeira materialista nem numa visão à tio Patinhas, ou seja, de visualizarmos os outros em cifrões e em ouro, e na contrapartida de vantagens para nós. Nada disto impede a nossa realização no mundo profano, pois o verdadeiro iniciado maçónico não está, não pode estar asceticamente fora do mundo.

Gostaria, para finalizar, de pontuar sinteticamente alguns aspectos essenciais para a consecução do processo iniciático. São pontos que merecem um outro desenvolvimento, e fica aqui, e desde já, um desafio a todos nós, e a mim próprio, para em comum ou individualmente, os trabalharmos.

Em primeiro lugar uma percepção mais clara do que é o processo iniciático em Maçonaria, sem a qual obviamente iremos defraudar a essência da nossa Sagrada Ordem, como Fraternidade Iniciática - e; sublinhe se, que não é uma Fraternidade de Iniciados, mas Iniciática. A questão que estou a colocar reduz se quase a uma questão de oferta e procura. Porque a Maçonaria é, deverá ser, uma sociedade de eleitos, e de modo nenhum de elitistas. Eleitos, no sentido de escolhidos pela própria Ordem, como pessoas aptas para seguir o processo iniciático maçónico.

Teremos que aprofundar a compreensão do processo iniciático que abarca a transmissão iniciática, a cadeia iniciática, a assimilação iniciática, a questão da hierarquia iniciática e da hierarquia oficiante, a utilização do processo simbólico e ritualista, as etapas espirituais da purificação maçónica e no ponto de vista formativo a relação Iniciação - Ensino Iniciação - Processo interior, etc. Isto são questões essenciais, sem as quais não saberemos o que estamos a oferecer e quem escolher - eleger - para o realizar e para o transmitir. A Tradição Iniciática é essa transmissão ininterrupta sem a qual mesmo que haja regularidade administrativa não há regularidade espiritual, sem a qual o próprio processo iniciático se profaniza e morre.

Só assim se poderão entender os critérios de aptidão dos futuros candidatos, habitualmente designados por Princípios de Qualificação e Reconhecimento Iniciáticos.

Fique claro que não estamos a falar em saber profano, em psicologia, psicanálise e sociologia etc., estamos a referir um conjunto de saber reunido em milénios pela Ciência Sagrada Iniciática. É falsa a via que alguns pretendem de que só se inicia quem soltar a sua interioridade, sem conhecimento, sem estudo profundo prévio, sem balizas ou sem marcas e extremas. Mais uma vez temos de recorrer a René Guenon quando ele conclui que ninguém se inicia pelo estudo, pelos livros, mas que há um uso iniciático do estudo e dos livros.

Já dizia Ragon, um irmão nosso do séc. XIX, no seu Ritual do grau de Mestre que "Nenhum grau conhecido não ensina nem descobre a verdade; somente ele retira a espessura do véu... Os graus praticados até hoje fizeram maçons mas não fazem iniciados". Ou como nos disse recentemene, ainda em 93, o nosso irmão Vale Amesti, num livro que muito recomendo, "Le Retour de Henoch ou la Maconnerie qui revient...", duma forma amargurada, mas simultaneamente cheia de esperança: "Abrir as portas sem discriminação converte a ordem numa fábrica de maçons de opereta, de profanos brincando aos maçons e profanando a augusta majestade dos seus templos, pois, acrescento, segundo a conhecida sabedoria judaica, "toda a coisa corrompida tende pela sua própria natureza, a corromper o que é santo".

Se calhar o que eu pretendo dizer, V:. M:. e meus QQ:. II:., torna-se mais claro se nos debruçarmos um pouco sobre a relação do iniciado com o símbolo.

É importante insistir que sem uma reevocação de sentidos perdidos, a maioria das pessoas são actualmente verdadeiros analfabetas da linguagem simbólica. E por esta razão que firmemente discordo, e quero dizê-lo aqui, de alguns nossos irmãos, quando dizem que se deve a cada um deixar a liberdade da interpretação que lhe faça sentido, que logo à partida deve ser individualizada. Sem a instrução de sentidos e de significados, sem essa base histórica sem ensinar a ler os símbolos, calmos em disparates ou no que gosto de designar por birutices esotéricas. Há uma imperativa necessidade de formação maçónica nesta área que forneça capacidade de leitura simbólica, que instrua no sentido pleno da palavra e isto não tem que ver com inculcar nada com dogmatizar nada, mas criar condições que permitam sugerir e motivar a eclosão da transcendência intuitiva personalizada, após esse conhecimento preliminar.

De facto a Maçonaria não ensina a verdade, nem há uma verdade maçónica, propõe é um método, para o encontro com a verdade interior, que é a essência do método iniciático e simbólico, ou seja, em que se apresenta uma significação objectiva e visível (e esta deve ser bem conhecida), por detrás da qual se esconde outra significação mais elevada profunda, invisível e inexprimível. É simplesmente por esta razão que o verdadeiro segredo maçónico não é revelável e, nesse sentido, é quase um contra senso afirmar a sua existência. Mas os símbolos são "cavalos para andar mais depressa" no dizer tibetano, mas são também orientadores que conduzem o pensamento numa orientação determinada, num olhar para a verdade e o amor que se esconde na caverna do nosso coração.•

Um último ponto que pretendo salientar é o da especificidade do simbolismo maçónico.

Temos visto, ouvido e lido muita polémica sobre qual o simbolismo nuclear maçónico. Que tem que ver os mistérios de Eleusis dizem uns, que tem que vir com os mitraicos dizem outros; que se calhar vem dos mistérios egípcios, mas não, que vem da escola neo-alexandrina. que é a cópia da gnose judaica, a cabala, pelo contrário, que é pura gnose cristã, etc., etc., etc. O séc. XVIII, na redescoberta da antiguidade e num gosto "Kitsh", favoreceu estas falsas geneologias, acrescentando outras rosa crucianas, templárias, etc.

Todas essas organizações iniciáticas ou pseudo-iniciáticas deram, indiscutivelmente, a portes ao simbolismo que hoje usamos maçonicamente. Contudo não podemos tomar o acessório e tantas vezes o supérfluo em relação ao que é essencial e, se bem utilizado, mais do que suficiente. Refiro me à necessidade da defesa intransigente da especificidade do simbolismo da Tradição Maçónica sem a qual não mereceria a designação de Maçonaria, em nós de pedir-mos.

"A Maçonaria consiste em elevar edifícios sobre as suas bases. Sós somos maçons espirituais", insistia Guenon. Ou seja é a utilização em plenitude dos trabalhos simbólicos ligados ao ofício que caracteriza a Maçonaria e que temos de defender como a mais sagrada tradição a preservar, se quisermos manter a identidade iniciática maçónica.

São estes os pontos nodais das Lojas Azuis, das Lojas Simbólicas, são estes pontos que no fundo justificam o nobre princípio maçónico de que não se escolhem candidatos para serem bons aprendizes mas sim para poderem vir a ser bons Mestres.

Em conclusão, a Maçonaria é uma Sociedade Tradicional Iniciática, guardiã e transmissora de princípios sagrados com um método iniciático próprio.

A Maçonaria também e sempre defendeu o Progresso, a Ciência e o Saber. Aceitação vigorosa do progresso no sentido tradicional do termo, ou seja, de tudo que contribua para o aperfeiçoamento do homem e das suas condições de vida mas que preserve a unidade sagrada do homem com o Cosmos, obra do Grande Arquitecto do Universo. É para a Maçonaria um desiderato nuclear fazer coincidir a Tradição com este tipo de Progresso.

Querido Irmão: Defendamos a função espiritual da Maçonaria! Uma Maçonaria sem ter como sua essência a via iniciática é como uma circunferência sem centro... Que esta alegoria nos atinja em todos os nossos graus e qualidades.

Nesta Loja, onde reina uma franca fraternidade maçónica e onde se vive, em alegria, o comum desejo de aperfeiçoamento, aqui fica não só o meu reconhecimento como vosso irmão e como obreiro, Pedra que sou do Templo que sou convosco, mas aqui também quero deixar como intransigente desejo, esta pequena metáfora:

"O corpo do homem é uma Loja ou um Templo, que é a repetição do Templo Geral, particular e universal. Todos os seres provenientes do Criador são Templos. Mas, meus irmãos, é preciso distinguir as verdadeiras Portas do Templo".

Autor não Identificado

Fonte: http://www.rlmad.net/rlmad-main/mmenu-pranchas/295-uma-defesa.html

Maçonaria e Política

Comecemos por aferir da justeza dos pressupostos. É exato que está tão disseminada a noção de que a integração na Maçonaria confere «influência junto ao Poder Político»?

Está! É inegável que está! Pelo menos na "opinião publicada". Seguramente nos azedos comentários de anti-maçons ou, mais elucidativo ainda, de adversários políticos de determinado partido político português, que, certa ou erradamente, ganhou fama de ser muito influente entre os maçons.

É óbvio, é evidente que não me agrada esta "tão disseminada" noção. Mas o facto de assim ser não faz com que ela não exista e que esteja menos "disseminada". Não o reconhecer é equivalente ao inútil ato, atribuído, quiçá injustamente, à avestruz, de esconder a cabeça na areia. E com os mesmos ineficazes resultados!

Penso que as várias centenas de textos de minha autoria que este blogue leva publicados mostra bem que essa não é a minha postura. Pode concordar-se ou discordar-se das ideias que aqui exponho. mas, com justiça, não posso ser acusado de fugir ao debate ou às questões incómodas! Vou portanto ensaiar aqui dar a minha resposta, não sem antes deixar bem claro que, na mesma, não se deve ver qualquer juízo de valor em relação a outras organizações que não aquela em que me integro, nem aos seus aderentes. Vou limitar-me a referir factos, tal como os conheço, e a extrair deles as minhas conclusões.

A Maçonaria Universal tem duas grandes variantes.

Uma delas é a Maçonaria Regular, por alguns também designada "de inspiração anglo-saxónica". Considera-se a verdadeira Maçonaria. Reclama-se de ser a seguidora direta das quatro Lojas que, em 1717, fundaram a Grande Loja de Londres, que declara a Grande Loja fundadora da moderna Maçonaria especulativa, erigida sobre as fundações da antiga Maçonaria operativa. Não abdica de dois princípios essenciais: a crença num Criador, qualquer que seja a designação que cada um lhe dê ou a religião que cada um professe, que designa por Grande Arquiteto do Universo, e a sua vocação exclusiva de se destinar ao aperfeiçoamento individual, moral e espiritual, dos seus membros. Como corolários destes dois grandes princípios, resultam a proclamação do eminente valor da Tolerância, no sentido de que se deve reconhecer ao Outro o direito às suas ideias e à expressão delas, ainda que delas profundamente se discorde, pois as ideias rebatem-se com argumentos, não com proibições ou ostracismos; a consideração de que as mudanças a que o maçom deve aspirar são as que reconhece dever haver em si próprio, não havendo lugar, enquanto maçom e enquanto Maçonaria, a intervenção na Sociedade, muito menos de caráter revolucionário, limitando-se a única intervenção do maçom na sociedade ao exemplo que der pela sua conduta, atuando o maçon e a Maçonaria sempre no estrito respeito da Legalidade vigente em cada lugar; a recusa de intervenção política, enquanto maçom ou enquanto Maçonaria, pois a luta política deve ser estranha à Fraternidade entre maçons e o respeito pelas ideias do Outro implica que cada maçon é livre de, individualmente, ter as posições que entender e, enquanto cidadão, intervir politicamente como quiser, não havendo lugar a qualquer "indicação" política ou "congregação" de vontades políticas.

Outra variante é a que costumo designar de Maçonaria Liberal, ancorada na evolução sofrida pelo Grand Orient de France, na sequência de vários fatores: rivalidade franco-britânica, evolução das condições sociais em França (Revolução Francesa), inserção dos atores políticos na Maçonaria. Esta outra variante é em quase tudo consentânea com a primeira, com duas importantes exceções: por um lado, aceita a presença de agnósticos e ateus nas suas fileiras, fundamentando tal opção no princípio da Liberdade de Consciência e na não ingerência na convicção alheia (elevando o corolário da Tolerância ao primado de princípio, gerador, por sua vez, de um outro corolário, o laicismo); o entendimento de que a missão principal da Maçonaria é a melhoria da Sociedade (e não apenas dos seus membros, individualmente considerados), cabendo à Maçonaria pugnar pela realização da trindade essencial dos princípios políticos (Liberdade-Igualdade-Fraternidade) e trabalhar pela sua aplicação na Sociedade, mesmo por meios revolucionários, se tal se justificar, designadamente por inexistência de regime político democrático.

Como é sabido, a evolução histórica em Portugal ocorreu no sentido de que, muito cedo, a Maçonaria que se implantou e, durante muitos anos, em exclusivo existiu no País, foi a desta última variante.

Não é segredo para ninguém que o Movimento Republicano foi fortemente influenciado pelos Maçons da época, podendo mesmo dizer-se, creio que consensualmente, que a Revolução Republicana de 1910 foi fortemente influenciada, para não dizer mais, pela Maçonaria da vertente liberal.

Os principais políticos da I República foram - é sabido - maçons liberais. A esta luz, percebe-se melhor que, no dealbar do salazarismo, uma das medidas tomadas tenha sido a proibição da Maçonaria. Esta, sempre na sua vertente liberal, no entanto, foi conseguindo existir clandestinamente, com ligações aos opositores do regime de Salazar e, mais tarde, de Caetano. Restaurada a Democracia e novamente legalizada a Maçonaria, liberal, esta era constituída essencialmente por velhos republicanos e políticos e outros opositores ao regime derrubado. A nova ordem política pós-25 de Abril incluiu, em lugares de destaque, maçons liberais. Que se rodearam de quadros mais jovens que, atraídos para a política, também inevitavelmente o eram para a Maçonaria liberal. A vocação de intervenção política e social da Maçonaria Liberal pôde voltar a concretizar-se, após o derrube da Ditadura.

Só há cerca de 20 anos, foi introduzida formalmente em Portugal a Maçonaria Regular. Esta não tem, enquanto tal, qualquer intervenção política. Não é, assim, um local especialmente apetecível para políticos e candidatos a políticos.

Mas mais de um século de intervenção política da Maçonaria liberal deixaram marcas. Não admira que o comum das pessoas associe uma Maçonaria, a liberal, que assumidamente considera ter um campo de intervenção útil na Política, a «influência junto ao Poder Político» - particularmente quando, historicamente, a teve! Quanto ao "subir na vida" e aos "privilégios especiais", são fatores associados, no imaginário corrente, aos políticos, seus privilégios e idiossincrasias e, inevitavelmente, foram, nesse imaginário comum, por associação também aplicados à Maçonaria com atividade política, a liberal.

A Maçonaria Regular, aquela em que me incluo e se incluem os elementos da Loja Mestre Affonso Domingues, integrante da Grande Loja Legal de Portugal/GLRP, contrariamente ao ramo liberal, não tem intervenção política. Postula como seu objetivo o aperfeiçoamento individual dos seus membros. Forma consciências. E cada um, segundo a sua consciência, como livre-pensador que é, intervém onde entende, como entende, se entende. Agrupando livre-pensadores, a Maçonaria Regular não tem a pretensão (logicamente votada ao fracasso...) de pretender que esses livre-pensadores pensem todos de forma igual - por isso considera não ser sua vocação a intervenção política que, para existir de forma minimamente eficaz, implica alguma concordância de pensamento.

Atento o lastro histórico que existe decorrente da antiguidade da implantação da Maçonaria liberal no nosso País, é inevitável a existência da associação entre Maçonaria (liberal) e Política. A Maçonaria Regular, tendo uma firme orientação diferente, necessita de esclarecer bem a sua posição. Não quer que ninguém se interesse pelos seus princípios induzido em erro pelos condicionalismos históricos. Daí que esclareça, cuidadosamente, a questão. Daí que escreva e publique textos como Cinco motivos para NÃO SER maçom!

In Blog "A Partir Pedra" - Texto do Irmão Rui Bandeira (25.11.2009)

Fonte: http://www.rlmad.net/arquivoblog/72-art-div/633-mac-pol.html