domingo, agosto 12, 2007

Trabalho da primeira instrução de Aprendiz Maçom


Estou apreensivo para saber para onde estão me levando. Vendado e, conseqüentemente, na completa escuridão, tenho a nítida impressão de estar sentado nas cadeiras da primeira fila de um auditório. Estou com frio. Será que mais alguém está aqui?

O tempo passa e, com ele, os receios, dúvidas e apreensões. Sei que ainda tenho muito a caminhar esta noite, mas passo agora, auxiliado pela privação de sentidos e pela solidão, a experimentar flashes da minha vida...

Conduzido a outro recinto e recobrando minha visão, sinto agora que estou em meu jazigo, vivo de espírito mas fisicamente sem vida. Inscrições e alegorias me fazem refletir sobre o nível espiritual que consegui alcançar nesta vida, as boas e as más ações, os equívocos no juízo de valor entre o material e o espiritual, o que faria se me fosse dada outra chance de recomeçar... E o tempo passa...

Acabo de ser iniciado! Passei por provas que foram chamadas de viagens e que representaram os elementos fundamentais – terra, ar, água e fogo. Mais do que isso, essas provas fizeram com que eu, novamente na escuridão, fosse guiado por um ente que me encheu de confiança e que me conduziu através de etapas que me transmitiram um misto de paz, resignação e purificação. Ao final desse processo, resta a impressão de estar novamente saindo de um ventre, de estar renascendo e recebendo uma nova chance de evoluir.

Sinto - me reconfortado pelas afetuosas energias que percebo chegarem , vindas de pessoas ainda estranhas mas que, na alma, parecem velhos conhecidos em um agradável reencontro.

Queridos irmãos, quem acaba de vos falar é a minha memória, reproduzindo lampejos de dúvidas profanas que invadiam minha mente no transcorrer da minha iniciação. Quem acaba de vos falar é o meu coração, franco e aberto ao descrever meus medos, minhas angústias e, em suma, o fim de dias tão escuros.

A iniciação passou, os trabalhos em loja começaram e hoje estou aqui, apresentando meu primeiro trabalho. Por mais estranho que possa parecer, para mim e para os senhores, sinto - me realmente uma criança, dando os primeiros passos, um colegial falando aos mestres. Peço a compreensão de todos e sinceras desculpas por tão simples manifestação.

Ao mesmo tempo em que o embaraço me toma de assalto, sinto - me iluminado pela sabedoria que emana de cada irmão aqui presente. Se pudesse relacionar todos os ensinamentos retirados até agora dessa nobre ordem, um dos primeiros que tive o privilégio de receber foi o do incondicional respeito ao inesgotável manancial de sabedoria e experiência presente em cada um, maior quanto maior for o tempo de iniciação na Arte Real. É ótimo sentir - se rodeado por verdadeiros sábios, espíritos de conduta reta e ilibada.

Tomando os senhores e outros irmãos que passaram pela minha vida como exemplos, afasto qualquer dúvida de que somos pequeninas mas importantes peças no conjunto arquitetônico maior, na obra do Grande Arquiteto Do Universo. Nesse grande projeto, cada um tem seu lugar, seu mister na formação de uma sociedade realmente justa e perfeita. Um dos objetivos de cada indivíduo durante nossas breves estadas neste plano é justamente tomarmos consciência desse papel, da importante vocação para darmos nossa modesta contribuição a esse projeto tão magnífico.

Fica claro também que, assim como no seio da maçonaria, representado em seus diferentes graus, nosso espírito galga paulatinamente diferentes níveis de evolução, motivo pelo qual devemos buscar constantemente essa elevação da alma. Somos homens e, portanto, falhos. Precisamos evoluir espiritualmente, ainda que nunca consigamos alcançar a perfeição.

A dúvida que persiste é: como separar o joio do trigo em nossos atos? Como se manter orientado no caminho que conduz à perfeição? Como se desviar das dificuldades que inevitavelmente surgirão? Assim como um verdadeiro mestre, a maçonaria nos apresenta ferramentas para que possamos responder a tais perguntas, símbolos repletos de significados que, de forma sábia e inteligente, podem ser usados tanto para desbastar uma pedra como para poli-la. Sem enfocar respostas mas, sim, meios de obtê-las pelo próprio esforço e empenho, a maçonaria nos garante a condição de eternos aprendizes e, com isso, o empenho necessário na busca pela retidão de espírito.

Usando tais alegorias e cientes do nosso papel no templo maior, tornamo-nos criador e criatura, ferramenta e matéria, cinzel e Pedra Bruta. Como senhores do nosso próprio destino, aprendemos a enxergar o nosso eu mais profundo como uma pedra disforme que, com muito trabalho e dedicação, pode ser transformada em uma peça mais forte, bela e perfeita.

Como tomaríamos parte na virtuosa obra projetada pelo Grande Arquiteto Do Universo sem tal aperfeiçoamento pessoal? Como ser um verdadeiro maçom, um construtor social, um ente ativo na construção de uma sociedade melhor sem, antes, aparar as arestas de nossas próprias condutas, de nossos próprios pensamentos, separando o joio – vícios – do trigo – virtudes? Seja através do maço e do cinzel fornecidos pelo exemplo de irmãos, mas, principalmente, daqueles oriundos da própria consciência, reflexão e perseverança, é imperioso que sejamos o mais justos e perfeitos possível.

Analisando essas alegorias por um outro prisma, é possível enxergar os ensinamentos maçônicos como um grande fractal. Assim como o fractal é uma estrutura que se repete em todos os seus níveis, na qual o todo nada mais é do que uma parte em escala maior, os princípios e símbolos maçônicos podem ser aplicados em diferentes escalas da nossa existência. Visto dessa forma, poderíamos tomar nossas lojas como representações simbólicas do nosso eu, alegorias representativas de elementos como nossa consciência, nosso subconsciente, nossos pensamentos e atos. Sustentaríamos nosso “templo” espiritual com os três pilares – Sabedoria, Força e Beleza –, trabalharíamos em nossas L\ através da reflexão, teríamos nossas ações balizadas pelo L\ L\, utilizaríamos todos os instrumentos no aperfeiçoamento social e individual, teríamos nossos trabalhos conduzidos pelas Luzes, teríamos um templo que se estende ao infinito, etc.

Independentemente do sentido dado à simbologia apresentada, o trabalho do Aprendiz Maçom em loja e fora dela está voltado à arquitetura interior, ao contínuo e eterno lapidar dos sentimentos, pensamentos e ações. Retirando com golpes certeiros e direcionados os vícios que caracterizam nossa natureza profana, tornamos visíveis nossos mais nobres sentimentos e cada vez mais forte a luz que emana de cada um. Assim, é possível partimos do pessoal para o social, crescendo e fazendo crescer.

Há um ditado que diz: “Não há bons ventos para aquele que não tem rumo”. A maçonaria é a bússola de uma nau anteriormente à deriva, mostrando com clareza os pontos cardeais e “orientando”, no sentido etimológico e lato da palavra, o caminho ao inalcançável porto chamado perfeição espiritual.

Por fim, resta um pedido: “Irmãos Expertos (e todos os irmãos), continuai guiando este Aprendiz Maçom!”

Ir.'. Rafael Saldanha Campelo

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